terça-feira, outubro 30

CINEMA E MÚSICA


Antes do Amanhecer/Antes do Pôr-do-Sol
Alexandre Leite do Nascimento*
Cineasta Rock n’ Roll

Richard Linklater deve ser um cara legal e completamente rock n’roll, ao menos a julgar pelos seus filmes.
Isso talvez fique mais óbvio assistindo sua ótima estréia em “Dazed and Confused” (o título nacional é uma bobagem, melhor deixar pra lá) ou no divertido “Escola de Rock”, onde sua paixão pelo gênero fica mais evidente.
Mas, antes, é preciso ter em mente que rock n’roll é um gênero musical, mas também tudo o que o acompanha e faz parte de sua iconografia: a “atitude”, o inconformismo, a rebeldia, a vontade de mudar o mundo (e de se divertir também, pois não?)...Concordo que tais características já foram há muito absorvidas e amaciadas pelo establishment, mas elas fazem parte da gênese do rock e sempre, de tempos em tempos, aparecem artistas que não nos deixam esquecer isso.
E o que isso tem a ver com os belos “Before Sunrise/Before Sunset”?
O primeiro filme, lançado em 1995, parte de uma premissa simples e bastante romântica (voltarei ao ponto do romantismo) : Ethan Hawke (Jesse) e Julie Delpy (Celine) são jovens que se encontram num trem na Europa, se identificam imediatamente – não sem, antes, travarem interessantes diálogos sobre os preconceitos alimentados lado a lado entre os nascidos na Europa e os nascidos nos Estados Unidos - e decidem explorar Viena juntos. Enquanto passeiam pela cidade, conversam sobre angústias, medos, esperanças,frustrações e o que mais vem à cabeça. Apaixonam-se um pelo outro, claro. O problema é que Jesse precisa voltar para os EUA, e é a única noite que passarão juntos. Despedem-se (belíssima cena, aliás), prometendo reencontrar-se em 6 meses.
Em “Before Sunset”, lançado 9 anos depois, o casal se reencontra em Paris – outra cidade ícone no imaginário romântico – por ocasião de um livro escrito por Jesse e inspirado na história vivida com Celine. A estrutura se repete : eles passeiam pela cidade, conversam sobre tudo e sobre o que fizeram de suas vidas no período em que estiveram afastados. E Jesse – que está casado – precisa retornar para os EUA, só que desta vez antes do fim do dia.
Podem parecer apenas 2 filmes românticos. São, mas não no sentido mais superficial do termo.
É preciso admirar a coragem de Linklater em investir em um gênero de filme que, nos cínicos dias que vivemos, pode parecer obsoleto. É certo que, assistindo a ambos, não se nota traço ou ranço daquela melosa e aguada lenga-lenga associada aos filmes tradicionalmente tachados de românticos. Os diálogos são certeiros, ágeis, com uma ponta, sim, de cinismo, mas sempre soam naturais e bem articulados. Inteligentes e cultos, Jesse e Celine têm os pés no chão. Mas também são jovens, ora bolas, e, portanto, sonhadores. O que se nota é um gradual crescendo na afetividade e intimidade criada entre eles. E, no 1º filme, isso acontece sem pressa, o que levou alguns a dizer que “nada acontece”? Ledo engano : a crescente comunhão entre eles é mostrada minuto a minuto, o que torna ambos tão críveis, e não as estereotipadas figuras de papelão que costumam habitar esse tipo de filme.
Linklater, portanto, parte de uma premissa romântica, mas, inconformado que é, não se dobra a idéias feitas e mostra sua própria definição de romantismo : o de que é possível, sim, 2 pessoas que nunca se viram antes partilharem, em pouco tempo, de afeto, carinho e atração, respeitando as visões e concepções de mundo – ora coincidentes, ora conflitantes - da outra parte. Isso sem pesar a mão na dose de açúcar.
O que isso tem a ver com rock n’roll? Os roqueiros não são, antes de tudo, românticos? Por vezes empedernidos, por vezes declarados, mas sempre românticos.
No 2º filme, já mais calejados pela vida e suas dores, Jesse e Celine parecem um pouco mais duros e menos sonhadores. A intimidade e a comunhão entre eles, no entanto, estão lá. Para muito contribui o fato dos 2 atores serem co-autores dos diálogos, o que os deixou muito mais à vontade e contribuiu para a naturalidade das atuações.
E, novamente, o que isso tem a ver com rock n’roll? A construção de uma concepção própria de “amor”, como uma comunhão de almas e de viver em paz com o outro, ainda que distantes e com rumos de vida distintos ; a construção do filme como uma colaboração – como uma entrosada banda de rock - entre atores e diretor, todos autores da história ; a ênfase nos diálogos e trocas de impressões de vida sobre os mais variados temas, e não em declarações românticas vazias e lacrimosas...Tudo isso mostra que há inconformismo com o modelo tradicional daquelas histórias de amor com altas doses de açúcar e, muitas vezes, sem senso de ridículo.
Mas Linklater, esperto e inteligente – e romântico - , faz isso para reafirmar que é possível, sim, existir amor em sua forma mais depurada e bela, sem neuroses e cobranças descabidas de um parceiro em relação ao outro. O outro, nestes filmes , é alguém com quem se aprende, não alguém objeto de posse.
E terminar – um tanto em aberto - com Delpy, dançando embevecida e languidamente ao som de Nina Simone – independente de gêneros musicais, uma grande cantora, de atitude completamente rock, rebelde, intensa e passional – cantando Just in Time, mostra que o diretor sabe o que faz :

“Just in time you found me just in time

Before you came my time was running low

I was lost them losing dice were tossedMy bridges all were crossed nowhere to go

Now you're here now I know just where I'm going

No more doubt or fear

I've found my wayYour love came just in time you found me just in time

And changed my lonely nights that lucky day”

No fundo, Linklater acredita que tudo o que precisamos é de amor, como já dizia uma certa banda surgida em Liverpool...


P.S.: Falando em rock e inconformismo, RL dirigiu ainda os lisérgicos “Waking Life” e “A Skanner Darkly” (este, baseado em texto do também inconformista Philip K. Dick) e “Fast Food, Fast Nation”, ataque frontal à indústria de fast food norte-americana. Ainda não os assisti, portanto os comentários ficarão para outra ocasião...


*Alexandre Leite do Nascimento é um carioca de boa cêpa, que ama cultura e tem uma inteligência absolutamente privilegiada,não se importando em ensinar aos que não foram agraciados por Deus com o seu talento.

Nenhum comentário: