sexta-feira, outubro 26

LITERATURA

A CURA DE SCHOPENHAUER
Ricardo Ferreira Balota*


Caros, lá vai a minha resenha. Peço desculpas pela extensão, pois foi empolgação de principiante. Espero que, mesmo assim, seja aproveitável.
No lançamento de "Quando Nietzsche Chorou", o primeiro livro do dr. Irvin Yalom, torci o nariz. Em primeiro lugar, o livro já disparou na lista de mais vendidos, despertando aquele desdém típico dos pedantes. Em segundo lugar, sempre tive muita reserva às obras de ficção que envolviam aqueles que são "os grandes" do meu panteão particular. Pensar em Nietzsche envolvido em tramas/obras menores era algo que me causava calafrios. Assim, quando o assunto era o livro, bastava um comentário blasé para fazer a delícia dos pedantes.
Não satisfeito em trazer um romance com Nietzsche, eis que o tal do dr. Yalom lança outro romance, cujo título, desta vez é nada mais nada menos do que "A Cura de Schopenhauer". O novo título acabou recebendo o mesmo tratamento da minha parte.
Há pouco tempo, acabei lento um artigo em que o autor fazia alguns elogios ao "A Cura de Schopenhauer". O que acabou despertando minha atenção foi o comentário sobre o ótimo resumo a vida e algumas das idéias principais de Schopenhauer.
Após uma série de boas referências sobre os livros do dr. Yalom, a curiosidade falou mais alto e resolvi abandonar aquela postura "não li, mas não gostei", ou aquela "ah, isso parece auto-ajuda". Acabei comprando "Quando Nietzsche Chorou", apesar da repugnância que me causava imaginar o próprio auto-intulado "anti-cristo" chorando. Acabei gostando bastante do livro, que tem passagens ótimas, além de um ritmo agradável, principalmente em sua primeira metade.
Sendo compulsivo, a satisfação com o primeiro livro me obrigou a comprar o segundo, ainda mais por ter melhores referências.
Este segundo livro me causava ainda maior implicância com o título. Realmente, querer apresentar uma "cura de Schopenhauer" me pareceu pretensioso demais. Mas, lendo o livro, descobre-se que o sentido não é bem esse. Na verdade, bem lido, o título contém uma ambiguidade. E é justamente esta ambiguidade que vai ser o eixo do livro. Não posso me aprofundar muito sem estragar a leitura de quem não o tenha lido. Mas os sentidos que a frase pode assumir estão presentes na base do desenvolvimento do livro. Depois de ler o livro, fica clara a felicidade do autor na escolha do título, cujos significados estão embrenhados na obra.
Diferentemente do anterior, a ação do livro se passa no presente. Ele se inicia com o dr. Julius Hertzfeld , um psiquiatra e psicoterapeuta de ponta, já chegado nos seus 65 anos, repassando momentos de sua vida. Em particular, procura se questionar se realmente havia sido importante para a vida de seus pacientes. Pesquisando seus arquivos, acaba achando a ficha de Philip Slate que, há vinte anos, tinha sido seu maior fracasso como terapeuta. Em três anos não conseguiu curá-lo de seu terrível vício. Ele tinha o corrosivo vício do sexo, ao menos uma vez por dia saía, seduzia uma mulher e a levava para a cama. Bonito e muito inteligente, não tinha dificuldades para conseguir este intento. Fora isso, era muito formal e tinha terrível dificuldade em se relacionar com as pessoas, não era capaz de manter relacionamentos com outras pessoas, vivia só, salvo suas presas eventuais, que, após enlace carnal, eram descartadas (um vício terrível, temos que convir). Tomado pela curiosidade sobre o destino de Philip, Julius entra em contato com o antigo paciente. Para seu espanto, Julius descobriu que o frio e distante Philip tornara-se orientador filosófico. Mais intrigante, descobre que ele se livrara da compulsão sexual, aderindo e inspirando-se nas idéias do grande filósofo alemão Arthur Schopenhauer.
Depois de alguns contatos, Julius percebe que Philip continua tão frio e distante quanto há anos, senão ainda com maior desdém pelo demais seres viventes. Contando com trunfo, consegue fazer com que Philip volte a tratar-se com ele, só que desta vez participando em terapia de grupo. Julius coloca Philip em grupo pelo qual nutre grande afeição.
A partir deste ponto, o livro passa a ter uma estrutura diferente, não muito usual. Aos capítulos sobre o desenvolvimento da história atual, são entremeados outros contendo dados sobre a biografia e as idéias centrais de Schopenhauer. Aliás, vale mencionar que todos os capítulos do livro contêm uma epígrafe com citações da obra de Schopenhauer.
Grande parte do livro vai retratar a dinâmica que se estabelece nas sessões do grupo de terapia, que a presença de Philip vai transformar. O iminente término do grupo também provoca um aprofundamento das relações entre os participantes. As sessões são momentos intensos de catarse. Todos expõe seus problemas, aflições e suas emoções. Mas sempre há surpresas a revelar. Apesar de a história ficar concentrada nessas discussões, os outros personagens são bem construídos e seus problemas e emoções são velhos conhecidos de todos. Afinal, somos humanos, e nada do que é humano nos pode ser estranho. Interessante também foi descobrir que as novas relações estabelecidas no grupo não são tão plácidas, pelo contrário, são bastante conflituosas. O grupo acaba formando um microcosmo dos relacionamentos de todos.
Ao mesmo tempo, podemos acompanhar a evolução de Schopenhauer. Na verdade, acompanhar os fatos que o tornaram um dos maiores e mais famosos misantropos e pessimistas da história do pensamento. Destaca-se a figura da mãe do filósofo. Uma figura muito interessante. Após ficar viúva, tornou-se uma escrito de sucesso, gozando da amizade das figuras literárias da mais destacadas época, até mesmo Goethe era 'habitué' de seus salões literários e convescotes. Não resisto a citar o comentário de Yalom sobre ela: "era a Danielle Steel do século XIX". Alguns trechos de cartas dela para o filho são excelentes. Muito bem escritas, revelam os sentidos contraditórios da mãe na relação com seu filho irascível. Mostram uma mulher segura, com pleno domínio de sua vida. Não consigo deixar de mencionar um comentário dela trazido pelo livro. Ela se queixou da decadência dos padrões culturais e intelectuais de então. Mas vejam, naquela tempo viviam sob o mesmo sol: Goethe, Hegel, Dostoievski, Tolstói, Marx, Darwin, Richard Wagner, Alexis de Tocqueville só para citar alguns!!!!
Achei muito interessante acompanhar a dinâmica das sessões de terapia em grupo, até mesmo deixei de considerar uma coisa bizarra. Dessa forma, o dr. Yalom pôde expor o funcionamento desta técnica de terapia psicológica com grande eficácia. Pelo menos eu me interessei pelo tema e gostei de acompanhar o desenrolar das sessões com as personagens trabalhando seus dramas pessoais, existenciais.
A estrutura do livro decorre da vontade do autor de tratar do tema da importância da filosofia para a psicanálise, principalmente de alguns filósofos que se dedicaram ao autoconhecimento, a entender a psicologia e a condição humana. (link para uma rápida entrevista do autor:
http://veja.abril.com.br/150306/auto_retrato.html).
Outro ponto interessante é o papel do personagem Philip. Na verdade, ele serviu para trazer Schopenhauer para a análise. Na leitura, fica claro que Philip é uma projeção da personalidade do grande misantropo alemão, suas dificuldades de relacionamento e compulsões refletem, de alguma forma, aquelas que afligiam Schopenhauer. Dessa forma, ele não precisou recorrer ao expediente de elaborar um encontro fictício de Schopenhauer com um terapeuta, como fez com Nietzsche.
Não concordei com as críticas que diziam que o primeiro livro trazia uma versão aguada da filosofia de Nietzsche e que o segundo apresentava uma versão muito psicológica de Schopenhauer.
Os me pareceram bastante felizes na abordagem das contribuições da psicologia e filosofia na autocompreenção, esse me parece o ponto principal das obras, que não têm as pretensões de um Thomas Mann ou um Robert Musil. Portanto, não se pode criticar uma obra pelo que ela não se propõe a ser.
No mais, é livro é muito bem escrito. A linguagem é sempre clara, mantendo um ritmo agradável até perto do final, quando me pareceu mudar um pouco. Um outro ponto que a atenção é clareza com que o autor trata de conceitos da filosofia, expondo-se de forma fácil, valendo-se, algumas vezes, mesmo de subterfúgios para ser didático.
Concluindo, acho que "A Cura de Schopenhauer" é um ótimo livro, seja para uma leitura mais ligeira e amena seja para observar com cuidado e se pensar sobre nossos conflitos e relacionamentos. Boa leitura!
Sobre o autor: nascido em Washington DC, em 13 de junho de 1931, filho de imigrantes russos. Formou-se em psiquiatria. Também é psicoterapeuta. Tem uma carreira acadêmica de sucesso, tendo se tornado Professor Emérito de Psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade Stanford. Permanece atendendo seus pacientesTem vários livros técnicos publicados.Para maiores informações sobre o autor consultar:
file://www.yalom.com/.
Ps como dizia o velho Karl, toda crítica científica será bem vinda.

*Ricardo Ferreira Balota é advogado, corintiano e crítico literário dos bons!!!!

Nenhum comentário: