quarta-feira, novembro 21

LIÇÃO DE VIDA

UMA PEQUENA CRÔNICA: SALINA
Texto e foto de Carolyn Hoppenstedt Ruzzi
Não temos mais tempo para grandes leituras, para sorver com delícia qualquer prazer a que tenhamos acesso.
Podemos tentar fugir ou podemos seqüestrar-nos da linha do tempo, dando um salto na eternidade ou ter uma chacrinha de final de semana.
Quando estou sentada aqui, na minha sala pequena, cuja porta-balcão me permite lançar os olhos para um jardim duramente conquistado, ano após ano, uma década de investimento pessoal, tempo roubado, pouquíssimo dinheiro, porém muita disposição para ver a vida despontar, despertar e se exibir na sua exuberância... bem, quando daqui contemplo este nosso jardim, sinto-me na eternidade .
Você já cansou de me ler? Então tenha mais um pouco de tolerância e leia as próximas linhas.
- A Salina chegou! Psiu! Silêncio... entre cuidadosamente com o carro e feche o portão silenciosamente.
- Quem chegou? Salina? Como?!
Estacionei o carro seguindo as instruções.
- Agora, venha ver... vamos lá embaixo no jardim.
E vi a pequena Salina junto da mãe, na entrada do buraco. A materialização do esforço do casal de corujas que está conosco há três anos sem ter tido filhotes... e quase chorei de emoção.
- Elas conseguiram! elas conseguiram! Um mês de atraso, mas aí está a corujinha mais pequena e mais feia do pedaço! Quem se importa com a feiúra? Para mim ela é o ser mais querido do momento, não, do momento não, da minha eternidade.
- Dei-lhe o nome de Salina lembrando da ilha mais distante que o Nanni Moretti visitou, no seu filme Caro Diário, que assistimos ontem. Poderia ter-lhe dado o nome de Vitória, mas Salina lembra o agreste, um lugar difícil e retirado, sem energia elétrica.
Salina é uma coruja-buraqueira e inaugura a nossa oitava geração de corujas em nosso jardim. Entrando na Wikipedia, você pode ter uma boa ficha técnica a respeito dessa ave que ainda não está em perigo de extinção no Brasil...
Hoje é o quarto dia de Salina no espaço desse jardim, tomando sol, após ter criado forças para percorrer o túnel de dois metros de comprimento, onde no final dele, ela quebrou o ovinho e nasceu. Ao morrer, Goethe exclamou:
- Luz, luz, muita luz!!!
Nascendo e vencendo os primeiros quinze dias no escuro túnel, Salina deve ter exclamado a mesma coisa ao sair para fora! Sem nem conhecer o tal do poeta alemão. Ela viveu a glória, sem nem saber que raio de palavra abstrata é essa e me deixou feliz, contente mesmo, em um salto na eternidade que me permiti acontecer.
Agora ficarei com o coração apertado, durante três a quatro semanas, esperando a Salina criar asas para voar longe de seus predadores. Aqui na chácara, pelas vizinhanças ainda temos muitos lagartos, os chamados teiús. Nossa cerca serve para desanimar a entrada desses repteis terríveis, mas não impede que um mais ousado consiga seu intento.
Algumas mini-considerações esclarecedoras.
Nas minhas linhas acima, há umas tantas referências a frases ou conceitos que apreendi de leituras e de outros meios de comunicação. Eu imagino que você, caro leitor, não terá tempo de ler ou assistir, então, caso eu tiver tempo, farei uma resenha para facilitar a sua compreensão ou, ao menos, servir para utilizar como referência também.
Seguem os dados:
1)Eternidade, segundo Joseph Campbell, série para TV de 1987, O Poder do Mito, disponível em DVD, não é imortalidade, mas o não-tempo, disponível para qualquer um de nós. Basta tentar, “a porta está do seu lado”.
2) Nanni Moretti cineasta italiano, cujos dois filmes Caro diario e Aprile, esse seqüência do anterior, entre 1995 e 1998, foram lançados no Brasil e estão disponíveis em DVD.
Uma consideração maior daquele que chamou a coruja de Salina:
Estou acompanhando um drama mais velho que o próprio ser humano. Quando foi que a primeira mãe decidiu compartilhar o destino de seus filhos consigo mesma? Por que ela decidiu isso? Por que resolveu ficar com os ovinhos? Chocar, esperar eclodir, cuidar, alimentar...
Afinal, os teiús também botam seus ovos, mas largam em um buraco e eles que se cuidem sozinhos!
Cuidar de crianças – e até gostar da tarefa – é um evento recente. A mãe coruja, mesmo exausta, parece adorar o que faz. E as corujinhas retribuem-lhe o carinho.
Mas nem sempre foi assim, e aí estão os teiús – lagartos, na língua tupi – para nos lembrar de uma época em que o carinho não existia. Os répteis simplesmente não possuem essa parte do cérebro.
A nossa empatia humana costuma se dirigir para aqueles seres que podem demonstrar amor, daí nos sentirmos cúmplices com as corujas. Pensando “racionalmente”, elas até são úteis porque nos livram de pragas como os ratos e de uma miríade de insetos, mas isso se torna irrelevante quando vemos a mãe coruja tratando de sua corujinha com dedicação em tempo integral. É uma delícia de se ver, e ponto!
Mas esse ano os filhotes das corujas da nossa região vieram muito tarde. O tempo quente e úmido de Novembro desperta os teiús da sua hibernação, aumentando o risco de uma família inteira de corujinhas, mais a mãe, serem dizimadas por estes repteis que merecem respeito pois aqui estão no planeta.
há muito mais tempo do que nós, seres humanos ou corujas.
Alguma “virtude” eles têm para terem sobrevivido tanto tempo.

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