terça-feira, janeiro 29

FOTOGRAFIA



Cerca de 3.500 negativos do fotógrafo ROBERT KAPA sobre a Guerra Civil Espanhola são descobertos no México
Randy Kennedy
Para o pequeno grupo de especialistas em fotografia ciente de sua existência, ela era simplesmente ''''a mala mexicana''''. E, no panteão dos tesouros culturais modernos perdidos, o objeto possuía a mesma aura mítica dos primeiros manuscritos de Hemingway, que sumiram de uma estação de trem em 1922. A mala - na verdade, um conjunto de três frágeis valises de papelão - continha milhares de negativos de fotos que Robert Capa, um dos pioneiros da fotografia da guerra moderna, fez durante a Guerra Civil Espanhola antes de fugir para os Estados Unidos em 1939, deixando para trás o conteúdo de sua câmara escura em Paris.Capa supôs que o trabalho fora perdido na invasão nazista - e continuou pensando assim até 1954, quando morreu no Vietnã. Em 1995, no entanto, começou a circular a notícia de que os negativos haviam de algum modo sobrevivido, depois de fazer uma viagem digna de um romance de John le Carré: de Paris a Marselha e então para a Cidade do México, nas mãos de um general e diplomata mexicano que servira sob Pancho Villa.E foi lá que eles permaneceram escondidos por mais de meio século, até o mês passado - quando fizeram mais uma viagem, provavelmente a última, até o Centro Internacional de Fotografia em Manhattan, fundado pelo irmão de Robert Capa, Cornell. Depois de anos de negociações discretas e intermitentes sobre o lar adequado dos negativos, sua posse legal foi transferida recentemente para o patrimônio de Capa por descendentes do general, entre eles um cineasta mexicano que viu o material pela primeira vez nos anos 90 e logo percebeu a importância histórica do que sua família tinha em mãos.''''Este é realmente o Santo Graal da obra de Capa'''', disse Brian Wallis, principal curador do centro. Ele acrescentou que, além dos negativos de Capa, as caixas rasgadas e empoeiradas também continham imagens da Guerra Civil Espanhola registradas por Gerda Taro, parceira de Robert Capa profissionalmente e, num período, pessoalmente, e por David Seymour, conhecido como Chim, que mais tarde fundou com Capa a influente agência fotográfica Magnum.A descoberta sacudiu o mundo da fotografia, já que, entre outras coisas, espera-se que os negativos esclareçam de uma vez por todas uma questão que assombra o legado de Capa: se aquela que é possivelmente sua foto mais famosa - e uma das mais famosas fotografias de guerra de todos os tempos - foi encenada. Conhecida como ''''O Soldado Caindo'''', ela mostra um miliciano espanhol republicano cambaleando para trás no instante em que uma bala aparentemente atinge seu peito ou sua cabeça numa colina perto de Córdoba em 1936. Quando foi publicada pela primeira vez, na revista francesa Vu, a foto causou comoção e ajudou a mobilizar o apoio à causa republicana.Embora Richard Whelan, biógrafo de Capa, tenha apresentado argumentos convincentes sobre a autenticidade da cena, dúvidas persistiram. Um dos motivos é que Capa e Taro não se preocupavam com a imparcialidade jornalística durante a guerra - eles eram comunistas partidários da causa legalista - e eram conhecidos por fotografar quadros encenados, uma prática comum na época. Nunca foi encontrado um negativo da foto - reproduzida a partir de uma antiga impressão. A descoberta de um negativo, especialmente na seqüência original mostrando todas as imagens registradas antes e depois da cena, poderia pôr fim ao debate.Mas a descoberta é saudada como um grande acontecimento não só por razões forenses. Trata-se da fase inicial do trabalho de um fotógrafo que, num século definido pelo confronto bélico, teve papel central na definição de como a guerra era vista, aproximando mais que nunca seus horrores e o público - ''''Se suas fotos não são boas o bastante, você não está perto o bastante'''' era seu mantra - mas, no processo, tornando-a mais cinematográfica e irreal (não surpreende que Capa, mais tarde, tenha trabalhado em Hollywood, aproximando-se de diretores como Howard Hawks e namorando Ingrid Bergman).Capa praticamente inventou a imagem do fotógrafo de guerra itinerante, com um cigarro no canto da boca e câmeras penduradas sobre a roupa. Sua intrepidez impressionava até os soldados que ele fotografava. Entre uma batalha e outra, ele se encontrava com Hemingway e Steinbeck, bebia demais e parecia enfrentar a vida em grande estilo. William Saroyan escreveu que via Capa como ''''um jogador de pôquer que tirava fotos nas horas vagas''''.De um jeito warholiano que parece apenas aumentar seu fascínio contemporâneo, Capa, nascido na Hungria com o nome de Endre Friedmann, também inventou a si mesmo. Ele e Taro, que o conheceu em Paris, criaram a persona de Robert Capa, apresentando-o como ''''um famoso fotógrafo americano'''', para ajudá-los a conseguir trabalho. O fotógrafo então incorporou a ficção e a transformou em realidade (Taro, uma alemã cujo nome verdadeiro era Gerta Pohorylle, morreu em 1937 na Espanha num acidente com um tanque quando tirava fotos).Os curadores do Centro Internacional de Fotografia, que iniciou um esforço de meses de duração para conservar e catalogar o trabalho recém-descoberto, dizem que a história completa de como os negativos - cerca de 3.500 - chegaram até o México pode nunca ser conhecida.Em 1995, Jerald R. Green, um professor do Queens College, parte da City University de Nova York, recebeu uma carta de um cineasta da Cidade do México que acabara de ver uma mostra de fotógrafos da Guerra Civil Espanhola patrocinada pela faculdade. Ele contou que havia recebido recentemente um arquivo de negativos em nitrato que pertencera à sua tia, que por sua vez o herdara do pai, o general Francisco Aguilar Gonzalez. No fim dos anos 30, o general servira como diplomata em Marselha, onde o governo mexicano, simpatizante da causa republicana, começara a ajudar refugiados antifascistas da Espanha a imigrar para o México.Pelo que os especialistas conseguiram deduzir de arquivos e de pesquisas do biógrafo Whelan (morto no ano passado), Capa, instalado em Nova York e temendo pela destruição de sua obra, aparentemente pediu que o gerente de sua câmara escura, um amigo e fotógrafo húngaro chamado Imre Weisz e conhecido como Cziki, salvasse seus negativos em 1939 ou 1940.Acredita-se que Weisz levou as valises para Marselha, mas foi preso e enviado a um campo de concentração em Argel. Em algum momento, os negativos acabaram nas mãos de Aguilar Gonzalez, que os levou para o México, onde morreu em 1967. Não está claro se o general sabia quem havia tirado as fotos ou o que elas mostravam; mas, se ele sabia, aparentemente nunca tentou entrar em contato com Capa ou Weisz - que por coincidência viveu o resto da vida na Cidade do México, onde se casou com a pintora surrealista Leonora Carrington (Weisz morreu recentemente, nonagenário; Whelan o entrevistou para sua biografia de Capa escrita em 1985, mas não trouxe à tona nenhuma informação sobre os negativos perdidos).''''Em retrospectiva, realmente parece estranho não ter havido maiores esforços para localizar essas coisas'''', disse Wallis. ''''Mas acredito que eles simplesmente desistiram. (Os negativos) foram perdidos na guerra, como muitas outras coisas.'''' Quando o Centro Internacional de Fotografia soube da possível existência do material, entrou em contato com o cineasta mexicano e pediu sua devolução. Mas cartas e telefonemas não renderam nenhum acordo, contou Phillip S. Block, vice-diretor do Centro para programas, acrescentando que, no início, ele e seus colegas nem sequer tinham certeza de que as afirmações do cineasta eram verdadeiras, pois ninguém havia visto os negativos (afirmando que a devolução do material foi uma decisão coletiva da família Aguilar Gonzalez, o cineasta pediu para não ser identificado neste artigo e não quis ser entrevistado).Encontros com o cineasta foram marcados, mas ele não apareceu. ''''E então a comunicação foi totalmente cortada, sabe-se lá por quê'''', disse Block. De tempos em tempos, foram feitas tentativas de retomar o contato, sem sucesso. Mas quando o Centro começou a organizar novas mostras da fotografia de guerra de Capa e Taro - em setembro -, decidiu tentar de novo, esperando que imagens dos negativos antigos pudessem integrar as exposições. ''''Ele nunca pediu dinheiro'''', afirmou Wallis, referindo-se ao cineasta.''''Aparentemente, ele apenas queria ter certeza de que os negativos iriam para o lugar certo.'''' Frustrado, o Centro recorreu à ajuda de uma curadora e acadêmica, Trisha Ziff, que havia morado muitos anos na Cidade do México. Depois de trabalhar durante semanas só para localizar o recluso cineasta, ela iniciou discussões sobre os negativos que durariam quase um ano. ''''Não é que ele não quisesse entregá-los'''', afirmou Ziff, em entrevista por telefone de Los Angeles, onde conclui um documentário sobre a célebre imagem de Che Guevara baseada numa foto de Alberto Korda.''''A meu ver, o problema era que ninguém, antes de mim, havia pensado nesse assunto delicado com a profundidade necessária'''', disse ela. O cineasta temia, entre outras coisas, que os mexicanos condenassem a entrega dos negativos para os Estados Unidos, por considerá-los parte da profunda ligação histórica de seu país com a Guerra Civil Espanhola. ''''Era preciso respeitar e honrar o dilema em que ele se encontrava'''', disse Ziff.No fim, a estudiosa convenceu o cineasta a abrir mão do material - ''''Acho que posso ser descrita como obstinada'''', disse ela - e obteve do Centro de Fotografia a promessa de permitir que ele usasse imagens de Capa para um planejado documentário sobre a preservação dos negativos, sua jornada até o México e o papel de sua família no salvamento. ''''Vejo-o com bastante freqüência'''', contou Ziff. ''''Acredito que agora ele está em paz com o assunto.''
'' tradução de Alexandre Moschella
fonte:www.estadao.com.br

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