quarta-feira, janeiro 2

LIVROS DO ÍNDEX

Durante a confraternização de fim de ano do pessoal do meu trabalho, depois de algumas piadas e brincadeiras, passamos a falar um pouco sobre cinema e literatura, e enquanto as pessoas falavam dos livros que haviam lido recentemente, dois deles me chamaram a atenção, não apenas pela temática, mas principalmente pelo título.
Um dele se chama deus não é grande: Como a religião envenena tudo, de Cristopher Ritchens e o outro: Deus - Um Delírio, de Richard Dawkins.
Um dos meus colegas havia lido os dois livros e estava muito bem impressionado com a leitura, despertando em mim uma certa curiosidade em saber o que eles dizem.
Fui na Livraria Cultura comprar uns presentes e dei de cara com o primeiro livro. Quando vi no título (deus não é grande: Como a religião envenena tudo) a palavra de Deus escrita em letra minúscula, confesso que fiquei reticente e quase desisti da compra (a culpa judaico-cristã nos acompanha desde o nascedouro até a morte), mas tomei coragem e fui em frente.
Comecei a ler o livro e, tirando o viés irônico do autor, que me desagrada bastante, estou achando a leitura bastante interessante.
Gosto muito de ouvir os questionamentos alheios, mesmo quando deles discorde, além de ser muito bom tomar conhecimento de dados religiosos e históricos que me faltam.
Ainda é cedo para tecer considerações sobre o livro, mas a leitura é bem instigante, o que nos faz ter vontade de ir até o fim, o que já é um bom começo...
No site da Revista VEJA (http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/241007/trecho_Deus.html) há a reprodução de alguns trechos do livro que retransmito para vocês:

TRECHOS DO LIVRO DEUS NÃO É GRANDE, DE CHRISTOPHER HITCHENS:
CAPÍTULO 1

PEGANDO LEVE
Se o pretenso leitor quiser ir além de sua discordância com seu autor e tentar identificar os pecados e as deformações que o levaram a escrevê-lo (e eu certamente percebi que aqueles que defendem publicamente a caridade, a compaixão e o perdão freqüentemente tendem a seguir esse caminho), estará não apenas discutindo com o criador desconhecido e inefável que – supostamente – escolheu me fazer assim. Também estará profanando a memória de uma mulher boa, sincera e simples, de fé sólida e decente, chamada sra. Jean Watts.
A missão da sra. Watts, quando eu era um garoto de cerca de 9 anos e freqüentava a escola na periferia de Dartmoor, no sudoeste da Inglaterra, era me dar aulas sobre a natureza e também sobre as Escrituras. Ela levava meus colegas e a mim para caminhadas em uma região especialmente adorável de meu belo país natal e nos ensinava a distinguir os diferentes pássaros, árvores e plantas uns dos outros. A variedade impressionante encontrada em uma sebe; a maravilha de um punhado de ovos descoberto em um ninho intrincado; a forma como, quando as urtigas irritavam suas pernas (nós tínhamos de usar bermudas), havia à mão uma suavizante folha de labaça: tudo isso ficou na minha cabeça, assim como o "museu do guarda-florestal", onde os camponeses expunham cadáveres de ratos, doninhas e outros animais nocivos e predadores, supostamente fornecidos por uma divindade menos gentil. Se você ler os eternos poemas rurais de John Clare, vai captar a idéia que eu estou tentando transmitir.
Em aulas posteriores nós recebíamos uma folha de papel impressa intitulada "Busque as Escrituras", que era enviada para a escola por qualquer que fosse a autoridade nacional que supervisionava o ensino da religião. (Isso, juntamente com as orações diárias, era obrigatório e cobrado pelo Estado). A folha continha um único versículo do Velho ou do Novo Testamento, e a tarefa era olhar a folha e depois contar à turma ou à professora, oralmente ou por escrito, qual era a história e a moral. Eu costumava adorar o exercício, e era muito bom nele, de modo que (como Bertie Wooster) freqüentemente era o "melhor" da turma de Escrituras. Foi minha primeira experiência com crítica prática e literária. Eu lia todos os capítulos que levavam àquele versículo, e todos os que se seguiam a ele, para estar certo de que tinha chegado ao "ponto" do mistério original. Eu ainda consigo fazer isso, para grande aborrecimento de alguns de meus amigos, e ainda tenho respeito por aqueles cujo estilo é algumas vezes desprezado como sendo "meramente" talmúdico, corânico ou "fundamentalista". É um exercício mental e literário bom e necessário.
Mas chegou o dia em que a pobre sra. Watts se superou. Tentando ambiciosamente fundir seus dois papéis – de instrutora da natureza e professora da Bíblia -, ela disse: "Então vocês vêem, crianças, quão poderoso e generoso é Deus. Ele fez todas as árvores e a grama verdes, que é exatamente a cor mais repousante a nossos olhos. Imaginem se em vez disso toda a vegetação fosse roxa ou laranja, como seria horrível".
Agora, vejam o que aquela velha idiota devota tinha tentado. Eu gostava da sra. Watts: ela era uma afetuosa viúva sem filhos sem filhos que tinha um velho sheepdog amistoso batizado de Rover e nos convidava para lanches depois da escola em sua velha casa meio arruinada perto da linha do trem. Se Satanás a escolheu para me levar ao erro, ele era muito mais inventivo do que a cobra insinuante do Jardim do Éden. Ela nunca ergueu a voz ou foi violenta – o que não pode ser dito de todos os meus professores – e, em geral, era uma daquelas pessoas cujo túmulo está em Middlemarch, * das quais se pode dizer que, se "as coisas não estão tão ruins entre mim e você como poderiam estar", isso "em parte se deve ao número dos que levaram fielmente uma vida oculta e repousam em túmulos não visitados".
Contudo, fiquei sinceramente horrorizado com o que ela disse. Minhas pequenas sandálias presas nos tornozelos se contorceram de constrangimento por ela. Aos 9 anos de idade eu ainda não tinha uma concepção do conceito do projeto inteligente, ou da revolução darwiniana em oposição a ele, ou da relação entre fotossíntese e clorofila. Na época os segredos do genoma estavam tão escondidos de mim quanto de todos os outros. Eu ainda não tinha visitado cenas da natureza em que praticamente tudo era hediondamente indiferente ou hostil `vida humana, quando não à própria vida. Eu simplesmente sabia, quase como se tivesse acesso privilegiado a uma autoridade superior, que minha professora tinha conseguido estragar tudo com apenas duas frases. Os olhos dela estavam ajustados à natureza, não o contrário.
Não vou fingir que lembro de tudo perfeitamente, ou em seqüência, depois dessa epifania, mas em um tempo relativamente curto eu também comecei a perceber outras esquisitices. Se Deus era o criador de todas as coisas, por que deveríamos "louvá-lo" de forma incessante por fazer o que para ele tinha sido tão natural? Isso, além de qualquer outra coisa, parecia servil. Se Jesus podia curar um cego que tinha conhecido, por que não podia curar a cegueira? O que havia de maravilhoso em expulsar demônios para que eles pudessem entrar em um rebanho de porcos? Aquilo parecia sinistro: parecia mais magia negra. Apesar de todas aquelas orações constantes, por que não havia resultados? Por que eu deveria continuar a dizer publicamente que era um miserável pecador? Por que o tema do sexo era considerado tão venenoso? Desde então eu descobri que essas objeções vacilantes e pueris eram extremamente comuns, em parte porque nenhuma religião consegue oferecer uma resposta satisfatória a elas. Mas também se apresentou uma outra, ainda maior. (Eu digo "se apresentou" em vez de "ocorreu a mim" porque essas objeções são, além de insuperáveis, inescapáveis). O diretor, que conduzia os serviços religiosos e as orações diárias e tomava conta do Livro, era um sádico e um homossexual enrustido (que desde então eu perdoei porque ele despertou meu interesse por história e me emprestou meu primeiro exemplar de P.G. Wodehouse), e certa noite falou uma coisa absurda. "Talvez vocês não vejam sentido em toda essa fé hoje", disse ele, "mas verão um dia, quando começarem a perder entes queridos".
Mais uma vez eu experimentei uma pontada de pura indignação, bem como de descrença. Isso era como dizer que a religião podia não ser verdade, mas não ligue, pois era possível contar com ela para conseguir consolo. Quão desprezível. Eu tinha então quase 13 anos e estava me tornando um intelectualzinho insuportável. Eu nunca tinha ouvido falar em Sigmund Freud – embora ele pudesse ter sido muito útil à mim para compreender o diretor -, mas eu tinha acabado de ter um vislumbre de seu ensaio O futuro de uma ilusão.
Estou infligindo tudo isso a vocês porque não sou daqueles cuja possibilidade de uma crença sólida foi destruída por abuso infantil ou doutrinação violenta. Eu sei que milhões de seres humanos tiveram de suportar essas coisas e não acho que as religiões possam ou devam ser absolvidas por terem imposto tais sofrimentos. (No passado recente nós vimos a Igreja de Roma desonrada por sua cumplicidade com o pecado imperdoável do estupro de crianças, ou, como poderia ser dito, "nenhuma retaguarda preservada"). Mas outras organizações não-religiosas cometeram crimes semelhantes, ou ainda piores.
* Cidade fictícia do romance de mesmo nome, de autoria de George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans (1819-1880). (N. do E.)

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