quinta-feira, janeiro 31

RELIGIÃO, ANGÚSTIA E CIVILIZAÇÃO


Gilberto Dupas
Hedonistas por excelência, nós chegamos ao mundo buscando felicidade e prazer. Tentamos conservar ao máximo essa esperança, mas a dura experiência vai ensinando que satisfação permanente é quimera, enquanto o comum é a frustração. Os que podem ser realistas se contentam com fugazes instantes de felicidade - em meio a fases de euforia e depressão - e procuram evitar o que for possível do sofrimento e da dor. Só os muito fortes reconhecem que é melhor não estragar um presente suportável com devaneios de alegrias impossíveis ou temores sobre um futuro totalmente imprevisto. A maioria dos homens não suporta tanto sofrimento e incerteza. E para agüentar a “dor de existir” se busca amparo em deuses e religiões que criam regras e garantem benefícios já nesta vida, ou numa próxima que elas prometem eterna e bela.Religiões são tipicamente o que Sigmund Freud chamou de Weltanschauung, ou seja, visões do universo; elas são construções intelectuais que solucionam as questões da existência, não deixam perguntas sem resposta e nos trazem a segurança de definir o que procuramos, ensinando o caminho para alcançá-lo. As religiões podem adquirir, assim, um poder imenso, pondo a seu serviço as mais fortes emoções dos seres humanos e acalmando nosso medo diante dos perigos e vicissitudes da vida, por garantirem final feliz e conforto diante das desventuras que recheiam a existência. A quem cumprir alguns requisitos éticos e observar certos mandamentos cada religião, à sua maneira, oferece a garantia de certa paz; para aqueles que falharem e tiverem um arrependimento sincero ainda pode haver perdão. E ainda existe a prece, mecanismo que promete uma influência direta sobre a vontade divina. Assim estruturada, a religião é uma notável combinação de educadora, consoladora e pai exigente.Para Freud, o padrão da crença religiosa inclui quase sempre um universo criado por um super-homem idealizado, quase sempre único e geralmente masculino. Esse deus criador é, em geral, claramente chamado de pai. Rígidas normas éticas e garantias de consolo se combinam nessa cosmologia. A pessoa, quando criança, deveu sua existência à instância parental (pai-mãe), que a protegeu e cuidou no seu desamparo infantil, exposta que estava a todos os perigos do mundo externo. O ser humano já adulto adquiriu maior força, mas agora percebe melhor os perigos à sua volta e se vê tão desamparado e desprotegido como na infância, muitas vezes não conseguindo prescindir de proteção diante do sofrimento e da angústia.Houve uma época em que o mundo era descrito como povoado de demônios. Os homens se defendiam desses maus espíritos por atos mágicos ou rituais. A religião os assumiu mais tarde - “E Deus disse: Faça-se a luz! E a luz foi feita.” As filosofias e a política também conservaram algumas dessas características, ressaltando a magia das palavras e a crença de que os fatos reais podem tomar o rumo que nosso pensamento lhes deseja impor. É claro que as religiões não se deram bem com o espírito científico; sua capacidade de consolo foi posta em dúvida pelo Iluminismo, já que elas têm dificuldade em suportar um olhar crítico e racional. Mas, então, por que os valores religiosos sobrevivem com tanta intensidade em pleno século 21, a ponto de servirem como base para ações fundamentalistas de alto impacto político e social, levando sociólogos do calibre de um Huntington a identificarem conflitos religiosos com guerras de civilizações?Os teólogos afirmam que a ciência não tem competência para julgar a religião, no que têm razão. Ela não pode ser avaliada por critérios lógicos, visto que seu pressuposto é uma origem divina dada como revelação por um Espírito que o ser humano não consegue apreender. A desqualificação do pensamento crítico e a exigência de aceitação incondicional dos dogmas revelados ajudam as religiões na sua autopreservação. Na religião grega, a busca do conhecimento provinha do medo do desconhecido. Tanto o mito quanto a ciência afirmavam que o homem só estaria livre desse medo quando cresse ou conhecesse. Adorno & Horkheimer lembram que Platão havia banido a poesia, assim como o positivismo o fez depois com as doutrinas religiosas. A natureza deveria ser dominada pelo trabalho; e a obra de arte teria de mostrar a sua utilidade para poder reclamar dignidade absoluta e não se confundir com a magia. O esclarecimento acabou se tornando totalitário; confundiu pensamento com lógica matemática e, em lugar de se libertar, retornou ao mito. Temos de desconfiar sempre das certezas. A ciência pretensiosa acha que não há nada que ela não poderá explicar ou controlar; esquece-se de que apenas formula metáforas provisórias à espera que novas as substituam. Já as religiões constroem o espaço das convicções reveladas e, portanto, absolutas.Nietzsche tentou atacar de frente esses perigos para deixar emergir o “homem-potência” no lugar do “homem-rebanho”. Mas seu “profeta” Zaratustra pediu demais ao exigir: “Agora prossigo só. Afastai-vos de mim e defendei-vos contra Zaratustra! Estou longe de ser um fundador de religiões. Não quero crentes.” Nietzsche descreveu Zaratustra como um espírito livre, um experimentador que prescinde de certezas. Ele via como fraco quem necessita de convicção e crenças. Um espírito livre deveria saber se equilibrar sobre cordas finas e dançar à beira do abismo. Acontece que os abismos neste século 21 parecem mais profundos e as ciências, mais arrogantes que nunca. Com isso crescem a insegurança e a solidão; e as religiões recobram sua força propondo lidar com o medo e a angústia do seu velho jeito humano, demasiadamente humano.
Gilberto Dupas, presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI), coordenador-geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP, é autor de vários livros, entre os quais O Mito do Progresso (Editora Unesp)
fonte:www.estado.com.br

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