sexta-feira, fevereiro 8

DEUS, A BIBLIA E AS RELIGIÕES


Ricardo Ferreira Balota

Nada mais kitsch do que os velhos filmes bíblicos. Na minha antediluviana infância, ficava impressionado com esses filmes. Em especial a fé total e inabalável dos heróis bíblicos, além de todos aqueles milagres. Talvez o que mais me espantava era o protagonismo direto de Deus nas histórias. Naqueles tempos, Ele tinha mais o hábito de se comunicar com os membros do seu povo escolhido. Lembro que, após assistir a um desses filmes, perguntei a meus pais “tudo isso aconteceu mesmo? é verdade?”. Se bem me recordo, eles disseram que era. Não poderiam dar outra resposta, uma vez que foram criados na tradição da Igreja Católica Apostólica Romana (ou de rito latino, como querem alguns).
Todas essas histórias derivam do maior sucesso editorial de todos os tempos, a Bíblia. Um livro com milhares de anos de história, sobre cuja realização a grande maioria dos crentes nada sabe. Bastava acreditar no dogma religioso, judeu ou cristão, de suas palavras são inspiradas por Deus ou por Deus e o Espírito Santo.
Eu tinha consciência sobre os vários problemas de tradução dos textos mais antigos. Até pouco tempo atrás, nada sabia sobre a questão muito mais relevante da transmissão dos originais das Escrituras ao longo do tempo. E este é um ponto crucial.
Minha atenção para a questão foi despertada pela leitura de “Deus Não é Grande”, de Christopher Hitchens, e pelo excelente “Deus, um delírio”, do grande Richard Dawkins. Ambos destacam o trabalho do pesquisador Bart Ehrman, que tem uma vasta obra sobre a origem do novo Testamento e sua transmissão ao longo do tempo. Tendo me interessado pelo tema, comprei e li o livro mais conhecido de Bart Ehrman, o ótimo “O que Jesus Disse? O que Jesus NÃO Disse? - Quem Mudou a Bíblia e Por quê?”, cujo título original é “Misquoting Jesus: The story behind who changed de Bible and why”.
Na introdução de seu livro, o autor conta sua interessante trajetória pessoal. O autor conta que nasceu em família evangélica, mas não muito religiosa, no estado de Arkansas (em pleno território que o Paulo Francis chamava de “flying over territory”). Foi na sua adolescência que passou a ter uma atitude diferente quanto à religião. Influenciado por um amigo carismático, passou a integrar um grupo de estudos bíblicos e passou pela experiência do “nascer de novo”, aceitando Jesus em seu coração e tornando-se um ‘cristão sério’, dedicando-se à fé cristã. A partir daí, transformou-se em um estudioso da bíblia. Cursou uma universidade de teologia ligada aos fundamentalistas evangélicos. Avançando em seus estudos, deixou o “bible belt”, passando a estudar em outras universidades não tão ligados aos “cristãos verdadeiros”. Por essa época, o autor passou a pesquisar mais a sério a questão da transmissão dos textos originais do Novo Testamento. Relata que foi justamente tal estudo que o levou a perder a fé que o tinha levado até ali.
Tal mudança parecerá plenamente justificada para qualquer um leia o livro. Hoje, a maioria de nós recebe e lê a Bíblia como se as palavras ali contidas fossem aquelas originais, aquelas que saíram diretamente da boca de Jesus ou de seus apóstolos. Todavia, o livra chama a atenção para um fato desprezado por nós, atuais integrantes da sociedade digital, da quase imediata circulação das idéias, dos textos, livros e imagens. Na verdade, até a invenção da imprensa, no século XV, e sua popularização, os livros eram escritos à mão. Esta simples constatação histórica tem uma enorme importância, pois a sobrevivência e divulgação dos livros manuscritos dependiam do trabalho exaustivo de copiá-los também manualmente.
Nos esquecemos que a origem dos textos no novo testamento é de meados do século I. O primeiro escrito cristão de que se tem notícia, carta do apóstolo dos gentios, Paulo, aos Tessalonicenses, foi escrita provavelmente no ano de 49 d.C.. Os evangelhos propriamente ditos, de Marcos, Mateus, Lucas e João, só teriam começado a ser escritos em algum período entre os anos de 50 a 70 d.C.. E a partir daí os textos passaram a ser copiados, manualmente, repise-se, seja para sua preservação seja para divulgação nas novas comunidades cristão que se espalhavam. Pode-se bem imaginar a precariedade das condições de realização dessa trabalhosa tarefa naqueles tempos.
Esse processo de produção de cópias dos manuscritos está longe de ter sido algo simples. Na verdade, trata-se de um processo cheio de complexidades e submetido a uma variada gama de influências ao longo do tempo. E esse é justamente o ponto central do autor, destacar que, ao longo de séculos, foi produzida uma imensa quantidade de manuscritos, com uma ainda maior quantidade de variações textuais. Tais variações decorrem de diversas fontes, tais como simples erros cometidos nas cópias, modificações inocentes e uma série de modificações provocadas por interesses e influências a que estavam sujeitos os copistas e os cristão ao longo de todo o período de formação desses textos.
Hoje em dia, há todo um ramo de pesquisas sobre essa imensa gama de variações textuais, a chamada Crítica Textual, que busca chegar aos “Textos Originais”, ou, pelo menos, aquela forma que representa a forma mais antiga e confiável do texto. Essa é a especialidade do autor.
O livro faz o histórico dessas alterações ao longo do processo de geração de cópias manuscritas dos textos do evangelho, demonstrando as descobertas e conclusões das pesquisas empreendidas. E os resultados são surpreendentes. Muitos trechos que nos são familiares têm sua autenticidade questionada. Por exemplo, entre os pesquisadores sérios, não há grandes dúvidas sobre não ser autêntica a história da mulher adúltera do evangelho de João (7,53-8,12). A passagem não existe nos manuscritos melhores e mais antigos, bem como o estilo de escrita é muito diferente do restante do evangelho de João.
Interessantes também são outras questões levantadas pelo autor. Por exemplo, ele chama a atenção para o fato de os próprios evangelhos terem sido compostos sob inspirações diferentes e com intuitos diversos. Melhor explicando, há um consenso de que o primeiro evangelho foi o de Marcos e que o Mateus e de Lucas foram compostos com base naquele primeiro. Ou seja, há modificações sobre a forma “original” até mesmo entre os próprios evangelistas.
Expondo o contexto do desenvolvimento do cristianismo, o autor vai demonstrando a variada gama de influências que sofreram os copistas cristão para realizar mudanças nos seus manuscritos. Muitas delas de grandes conseqüências sobre o sentido do texto e sobre questões teológicas. Uma dessas fontes era a própria opinião teológica dos copistas.
Nos primeiros séculos do cristianismo, havia um grande número de disputas teológicas entre diferentes correntes cristãs. Em um capítulo específico, o autor apresenta várias modificações realizadas nos manuscritos motivadas no combate às teses heréticas ou não-ortodoxas. Ele revela, desta forma, que uma das armas na disputa pelo predomínio na comunidade cristã foi a alteração dos textos, de forma a deslegitimar as teses teológicas dos adversários da corrente dominante.
Além das modificações teologicamente motivadas, outras foram motivadas por outro tipo de disputas. Alterações parecem ter sido realizadas em razão de contendas com os adversários do cristianismo, sobretudo os judeus e os pagãos. A relação de ambigüidade entre o cristianismo e o judaísmo é evidente por si só. O próprio nascimento do cristianismo dependeu da postura mais ousada de Paulo e Barnabé no chamado concílio de Jerusalém do ano 49 d.C., onde as teses de Paulo de que os novos cristãos não precisavam seguir os ritos judaicos, tais como o da circuncisão. Mais que isso, prevaleceu a possibilidade de se levar a palavra aos gentios e não apenas aos próprios judeus.
Outra fonte de mudanças textuais diz respeito ao papel das mulheres na igreja primitiva. Passagens dos evangelhos que pareciam garantir uma posição de destaque para as mulheres foram alteradas para garantir uma interpretação mais restritiva do papel delas nas comunidades cristãs primitivas.
A leitura do livro é extremante agradável. Apesar de aparentemente árduo o tema, a prosa do autor é bastante leve e a leitura flui muito bem. A simplicidade e a clareza são marcas desse livro que trata de um tema que parece ser exclusivo de recônditos acadêmicos. Na verdade, o livro demonstra a loucura das interpretações literais que ainda hoje prevalecem, pois não é possível chegar sequer ao texto original, ou próximo dele, que teria sido inspirado. Leitura altamente recomendada, sobretudo nestes tempos de fundamentalismos.

Um comentário:

Dannyguima disse...

bom, pra começar acho esse blog o máximo, uma referencia de bom gosto.
Qto ao livro citado onde contexta a verdade bíblica não posso elogiar, creio que a Bíblia seja a palavra de Deus, venho estudando e o mais importante vivendo essa verdade, e lhe afirmo que foi a melhor decisão da minha vida.
O que tem que ser avaliado são os costumes de época e leis imutáveis como AMAR A DEUS ACIMA DE TODAS AS COISAS...AMAR AO PROXIMO COMO A TI MESMO, e por aí vai...
O mais importante é discernimento e sabedoria...
Agora se coisas foram mudadas, se as pessoas "estudam" para colocar as suas verdades la dentro... nao sei, pq muitas coisas que são da carne gostaríamos que fossem licitas... mas aí está a beleza do livre arbítrio e de um Deus que quer ser amado pelo amor nao pela obrigação...
Bj e boas pesquisas...