quinta-feira, fevereiro 7

FEBRE DE BOLA


Ricardo Ferreira Balota

O Futebol apaixona. Todos sabem disso, seja por experiência própria seja pela observação. Há aqueles que apenas gostam do futebol e outros que são fanaticamente apaixonados. Sendo mais específico, a grande maioria dos apaixonados por futebol é, na verdade, louca por um clube. Como exemplo, eu sou Corinthians, e Nick Hornby é Arsenal. Em pouco tempo, o futebol tornou-se o esporte mais popular do mundo, atravessando as maiores distâncias físicas e culturais. Do Brasil à Suécia, da Turquia à África do Sul, é o esporte dominante, arrastando multidões pelos estádios onde são disputados os jogos. De outro lado, os que não gostam do nobre esporte bretão não conseguem entender o que pode levar alguém a dedicar tanto de sua vida a acompanhar jogos de futebol de um determinado clube.
Durante muito tempo, a literatura sobre o futebol foi escassa e rasa, salvo honrosas exceções. Agora, há várias obras interessantes, destacando as várias facetas assumidas pela paixão futebolística. Esta literatura recente veio lançar luz sobre a cegueira dos não iniciados, incapazes de ver todos os inúmeros dramas que envolvem uma simples partida de futebol. Com a genialidade de sempre, Nelson Rodrigues, que era Fluminense, dizia que, no futebol, o pior cego é aquele que só vê a bola. Perfeito!
Dessa nova literatura, destaco “Febre de Bola”, do inglês Nick Hornby (aliás, somente poderia ser inglês, uma vez que os americanos são exceção a esta paixão mundial. Cínicos, chamam de futebol um esporte que se joga predominantemente com as mãos...). Já na introdução, ele destaca que o livro é uma tentativa de entender sua obsessão pelo futebol, ou melhor, pelo Arsenal, tradicional time do norte de Londres. Na minha opinião, este é o livro mais interessante que busca explorar os motivos que levam a haver tanta paixão e longevidade na relação com o futebol e um clube em especial. Como diz o próprio autor trata-se de um livre de um torcedor, que mostra também o que é ser o torcedor fanático de um time de futebol. E ele faz isso muito bem.
Já na introdução, o livro tem um momento impagável, Nick Hornby relata que, certa manhã, após tomar café com sua namorada, cada um deles caiu em seus próprios pensamentos, até o momento em que ela solta a pergunta inevitável: no que você está pensando? A resposta é ótima, e vale transcrevê-la, pois todo fanático que se preze passou por algo parecido:
“A essa altura eu minto. Não estava pensando nem um pouco em Martin Amis, em Gerard Depardieu ou no Partido Trabalhista, mas é que nós, obsessivos, não temos escolha; temos de mentir em ocasiões como essa. Se disséssemos a verdade todas as vezes, seríamos incapazes de manter um relacionamento com qualquer pessoa do mundo real. Apodreceríamos sozinhos com nossos programas do Arsenal, nossas coleções discos de rótulo azul originais da Stax ou nossos spaniels Rei Charles, enquanto nossos devaneios de dois minutos se alongavam, aí perderíamos nossos empregos e pararíamos de tomar banho, fazer a barba e comer”.
A partir daí, o livro é dividido não em capítulos, em partidas, na sua imensa maioria do Arsenal. Em cada uma, ele vai buscando dissecar sua obsessão, lembrando determinadas passagens de sua vida pessoal e do jogo título daquele “capítulo”.
Na verdade, cada partida-capítulo é recheado com as ‘confissões’, com as sacadas e tiradas saborosas de Nick. As confissões dizem respeito ao muitos episódios de sua vida pessoal que são relatados, tais como as dificuldades da infância, o impacto da separação dos pais em 1968, os relacionamentos amorosos desfeitos e sua evolução pessoal.
Muitas são as ótimas ‘sacadas’ que ele proporciona a seus leitores, com suas observações sobre os mais variados assuntos, pois, mesmo um torcedor obsessivo, se dedica a observar e refletir sobre outros assuntos que não sejam futebol. Há ótimas observações sobre comportamento ao longo de todo o livro.
As tiradas são principalmente sobre a cultura pop. Típica figura da cultura pop, nascido no subúrbio de classe média, Nick Hornby é uma verdadeira enciclopédia dessa cultura típica do século XX, não chega a ser um Quentin Tarantino, mas não fica tão longe.
Os grandes destaques do livro são humor, a percepção agudamente auto-irônica, e a memória do autor, de fato, a leitura é altamente divertida, mesmo quando fala das dificuldades psicológicas de sua infância ele encontra sempre uma tirada muito divertida. Além disso, é fácil perceber o grande conhecimento de futebol propriamente dito que ele esbanja ao longo do livro. Outro elemento que ele deixa transparecer é a sua conhecida condição de verdadeira enciclopédia da cultura pop. Quem já leu o livro ou assistiu ao filme Alta Fidelidade sabe do que estou falando.
As partidas-capítulos são recheadas também com observações interessantes sobre cada época e sobre os acontecimentos da vida do autor, tudo sendo sempre muito bem relacionado e conectado com o futebol.
Nick Hornby exercita sua inteligência em várias questões relativas ao futebol, retratando suas transformações a partir dos anos 1970. Um dos destaques foi a questão da modificação do perfil do torcedor dos estádios ingleses. Hornby fala do afastamento dos torcedores mais fanáticos e dedicados, em sua maioria de classes sociais mais baixas, pelos torcedores de classe média alta, cujo amor ao clube não é algo tão incondicional como dos outros mais fanáticos e barulhentos. No Brasil, não se observa a mesma mudança de público nos estádios. Pude acompanhar uma mudança bem menos significativa, a maioria dos torcedores continua a mesma, com a presença cada mais marcante de torcedores de outras camadas também nas arquibancadas. É bem verdade que as transformações do ethos social têm tido uma influência sobre o caráter dos torcedores até mesmo no Brasil. Antes, o valor do amor incondicional ao clube sempre foi o princípio de maior prestígio no mundo do futebol. Este fato é decorrente de a escolha do clube ser livre, mais do que uma escolha, pelo menos nos grandes centros do futebol o que se dá é uma identificação da pessoa com o clube e o que ele representa. É essa ligação profunda que entre o torcedor e seu clube que dá um significado maior à paixão. Mas, infelizmente, esta cultura está em decadência, a media tem valorizado outros aspectos d clubes, como até mesmo o time que tem jogadores mais bonitos, o que tem levado a uma efeminação de certas escolhas de time com este perfil.
Para mim, um torcedor obsessivo, a leitura do livro foi simplesmente deliciosa. Mesmo com todo o recheio interessante do livro, o que se sobressai são emoções que somente o futebol é capaz de despertar nos seus iniciados. Apesar de recomendar o livro também para aqueles que não gostam de futebol, mas gostariam de entender um pouco melhor essa paixão mundial, reconheço que terão dificuldades com todas as citações sobre jogos e jogadores e que os verdadeiros obsessivos é que extrairão maior prazer na leitura, pelo simples motivo de, a cada partida-capítulo também evocará suas próprias lembranças e emoções trazidas pelo futebol. Realmente, só quem já foi a estádio e futebol e assistiu a uma partida importante; já se deixou envolver por toda a energia que circula pelas arquibancadas; que se pegou quase em pânico com um ataque do time adversário; que ficou totalmente imerso na partida, tomado por total empolgação com um lance do seu ataque; que já comemorou um gol com uma massa ensandecida alegria; que já sentiu a emoção causada por uma virada súbita, por um gol no finzinho do jogo; enfim, só quem também é obsessivo vai se identificar e aproveitar ainda mais o que o ótimo livro “Febre de Bola” tem a oferecer.

Um comentário:

jairsantos disse...

Parabéns pelo artigo,

Eu sou um dos que sofre de febre de bola. Ultimamente, a paixão tem sido tanta que comecei a apostar em quem é o vencedor dos jogos do campeonato brasileiro. É um passatempo muito divertido e até estou conseguindo tirar alguns lucros. Se antigamente sofria de febre de bola, agora estou quase a queimar:) Vocês que hábitos têm?

Abraço:)