terça-feira, fevereiro 12

VIDAS NEGRAS

JOÃO PEREIRA COUTINHO
Enviado por: Ricardo Ferreira Balota
A melhor forma de avaliar a situação negra nos EUA passa por olhar sua corrida presidencial
O ANO de 2008 será uma visita a 1968. Inevitável. Como esquecer a ofensiva militar do Tet, no Vietnã, a insurreição estudantil em Paris, o primeiro atentado do ETA na Espanha e os dois assassinatos que chocaram a América -o de Luther King, em abril, e o de Bob Kennedy, em junho?
Eu próprio não sou exceção e tenho passado os meus últimos dias a viajar pelo sul profundo dos Estados Unidos, com Martin Luther King.
Não é fácil imaginar, 40 anos depois, a segregação racial que existia por aquelas bandas. Mas é possível fazer um esforço.Imagine o leitor que era negro numa cidade como Montgomery, no Alabama.
Imagine que, todos os dias, era obrigado a pegar o ônibus da cidade. Imagine que entrava pela porta da frente, pagava a passagem ao motorista, era obrigado a sair pela mesma porta e a voltar a entrar pela porta traseira. Imagine que não podia ocupar os lugares da frente, reservados aos brancos; e se os lugares para negros estivessem todos lotados, só lhe restava fazer a viagem de pé, mesmo que os lugares para brancos estivessem livres. E imagine que um branco chegava, encontrava os seus lugares lotados e você, leitor, como negro, teria que ceder o seu lugar sob ordem do motorista.
A história mudou no dia primeiro de dezembro de 1955. E mudou com uma mulher de 43 anos, Rosa Parks, que simplesmente disse não. Intimada a levantar-se e a ceder o lugar a um branco, a sra. Parks recusou o convite e foi presa.
Mas o gesto de Rosa Parks levaria as associações que lutavam pelos direitos civis a iniciar um boicote à companhia de ônibus que duraria mais de um ano, com prejuízos materiais para ambas as partes.
Os negros viajavam de carroça, de mula. A pé. Não viajavam de ônibus.
É nesse contexto que surge Martin Luther King. Verdade que a América de 1955 não era a mesma América das plantações de algodão dos antepassados de Rosa Parks. Depois da Segunda Guerra, e depois da Guerra da Coréia, a segregação racial surgia aos olhos de muitos veteranos negros e de uma população negra crescentemente letrada e urbanizada como insuportável e intolerável.Mas era necessário um líder e Luther King foi esse líder. Não pela defesa de uma luta violenta contra a supremacia branca: como diria Talleyrand, optar pela violência no sul profundo de 1955, mais do que um crime, seria um erro. Leitor de Henry David Thoreau, Luther King aprendeu que a melhor forma de condenar um sistema maligno passava por não colaborar com ele; mas essa resistência deveria ser pacífica, o que concedia um maior dramatismo à luta racial: aos olhos de todo o país, a violência transmitida por televisões e jornais estava do lado dos brancos, e não dos negros, que surgiam como vítimas passivas de um sistema brutal.
Esta paradoxal combinação de Thoreau com Gandhi trouxe frutos no final.Trouxe frutos em 1956, quando o Supremo tornava ilegal a segregação racial nos transportes públicos. Ainda com Luther King, trouxe frutos em 1964, com a Lei dos Direitos Civis, que privava de fundos federais todos os governos estaduais ou locais que praticassem a discriminação. E trouxe frutos em 1965, garantindo a participação eleitoral dos negros nos destinos políticos da República.
Quando Luther King era assassinado na varanda de um motel de Memphis, em 1968, a situação dos negros era já irreconhecível e, mais ainda, irreversível.E hoje? Hoje, a melhor forma de avaliar a situação negra nos Estados Unidos passa por olhar para a corrida presidencial. E constatar o óbvio: Barack Obama pode ser o candidato democrata à Casa Branca; e, disputando a presidência com McCain, o primeiro presidente negro da história da República.
A mesma que, 50 anos atrás, exigia que os seus filhos viajassem de pé num ônibus parcialmente lotado.Existem duas formas de olhar para o caso. Alguns dirão que o fenômeno Obama demonstra bem como os Estados Unidos aprenderam a lição, enterrando uma página vergonhosa do seu passado.Verdade.
Mas o fenômeno Obama não mostra apenas que os Estados Unidos aprenderam a lição. Mostra como o resto do mundo não aprendeu a mesma lição. Porque é virtualmente impossível, em qualquer outro país sem uma maioria negra, que um negro seja eleito para a presidência.Exagero? Não creio.
Mas se o leitor discorda, agradeceria que me dissesse em que ano, ou em que século, o Brasil tenciona eleger um para o Palácio do Planalto.

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